No Funchal é fundado um Clube que ainda hoje se dá pelo nome de Club Sport Marítimo. Só 15 dias depois acontecerá a implantação da República. Mas as duas equipas de futebol que estão na origem deste Marítimo, já ostentam faixas com as cores do pavilhão republicano – o vermelho e o verde. Colocadas sobre as camisolas brancas que ambas as formações usam, essas faixas não são apenas uma forma de distinção entre os jogadores. Simbolizam, antes de mais, as aspirações da classe dos marítimos pelo advento do novo regime. E a crença que da sua instauração resultará Progresso e Bem-Estar.
Este clube, como todos os outros que se formarão até final da segunda década do século XX, também fundou as suas raízes nas movimentações desportivas que os ingleses – residentes e turistas – vinham semeando na Ilha desde o último quartel do século XIX. Mas a história da constituição do Marítimo não se faz na dependência dos ingleses ou com a sua colaboração. Pelo contrário, inscreve-se na afirmação independente da classe marítima.
Como se fosse um grito de liberdade, um corte de amarras. Uma bandeira de orgulho madeirense.
No período que se segue à fundação, a nova formação do Marítimo faz justiça à fama que rodeava as primitivas equipas que lhe deram origem. Respondendo com galhardia aos sucessivos desafios que lhe são dirigidos por grupos desportivos locais e das tripulações dos barcos que passam pelo Funchal, mantém-se invencível, por mais de oito anos, nos jogos que realiza no campo Almirante Reis. Por essa razão, as suas equipas de segunda e terceira categorias são frequentemente requisitadas para defrontar adversários anteriormente derrotados pela principal formação. E, nas mais das vezes, as vitórias voltam a ser do Marítimo. Essa invencibilidade traz novos desafios. Espalhada no país e no estrangeiro pelo testemunho das tripulações que experimentavam o pó do campo Almirante Reis e pela voz orgulhosa de comerciantes madeirenses, desperta a curiosidade e alimenta o respeito de adversários não imaginados à partida. Cedo o Marítimo passa a ter duas frentes de batalha – manter a supremacia local e afirmar-se nos compromissos que é convidado a assumir fora da Região. E, registe-se, quando o Marítimo começa a sair da Madeira, não vai só. Com todos os elementos que vestem a sua camisola seguem também as expectativas e as aspirações que os madeirenses depositam no clube.
Ultrapassada a crise que assolou o futebol verde-rubro entre os finais da década de 50 e meados da de 60, o Marítimo enceta uma luta decidida para conquistar um espaço definitivo em provas regulares do futebol português, assumindo-se como colectividade de dimensão nacional. Do centralismo das entidades responsáveis a nível nacional às atitudes dos rivais madeirenses, passando pelas posições dúbias de instituições desportivas diversas e pelas dificuldades materiais do projecto, os verde-rubros debatemse com imensos obstáculos. O caminho era, contudo, irreversível. Para que assim fosse, contribuíram, além da vontade do Marítimo, condições ‘alheias’ à realidade desportiva, de que são melhores exemplos a construção e funcionamento sempre em crescendo do Aeroporto do Funchal, o consequente aumento da actividade turística, o acréscimo nas remessas dos emigrantes, bem como uma situação política nacional que se ia caracterizando pela ‘abertura’ do regime. Os passos dados nesta fase da vida do clube são importantíssimos para a desejada integração. Mas antes que ela chegue, vejamos as raízes ancestrais dessa luta, bem como os caminhos trilhados para que o sonho se torne realidade.
Os símbolos e honrarias do Club Sport Marítimo – como de qualquer outra colectividade desportiva minimamente estruturada –, são parte importante da sua história, meios de identificação colectiva, instrumentos de elevação dos seus feitos, formas de confirmação das suas origens. No espaço que se segue apresentam-se os mais importantes elementos sobre os símbolos do Marítimo e sobre as mais destacadas honrarias que foram atribuídas à colectividade ao longo dos mais de 90 anos da sua vida. A identificação das razões que estiveram na origem de uns e outros servirá apenas para destacar momentos, feitos e circunstâncias que contribuíram para que o Marítimo tivesse ganho os títulos que, a caminho do Centenário, continuam actuais e fortes – o de ‘campeão das Ilhas’, o de ‘maior das Ilhas’, junto dos quais surge sempre a ambição de confirmar o estatuto de ‘um dos grandes de Portugal’. Como se verá adiante, não foi só pelo campo desportivo propriamente dito que esses títulos nasceram e solidificaram. Da solidariedade social à intervenção cultural, muitas outras contribuições da colectividade verde-rubra tornaram possível dizer-se que não é possível conhecer a história da Madeira no século XX sem conhecer a história do Marítimo.


















